Janja: novas perspectivas para a função de uma “primeira-dama”

| by tilia.goetze@kooperation-brasilien.org

Aurera Thatyanne Ferreira*

O governo Lula completou 100 dias e, dentre os aspectos de renovação e inovação que tem simbolizado desde a campanha eleitoral, está um talvez pouco esperado: o da função da primeira-dama. A atual ocupante do posto, Rosângela "Janja" Lula da Silva, foi assunto da mídia questionando sua influência política antes mesmo da cerimônia de posse e continua chamando a atenção de críticos e especialistas. Mas o que há de singular nessa nova mulher exercendo uma função tão tradicional?

Nascida em 1966 no Paraná, Janja cresceu em Curitiba e se filiou ao PT bem cedo, aos dezessete anos. Mais tarde chegou a trabalhar na liderança do partido na Assembleia Legislativa do estado paranaense, mantendo sempre ativa a militância política. Formou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e fez MBA em gestão social e sustentabilidade, construindo carreira na hidrelétrica de Itaipu e também na Eletrobras. Além de socióloga, militante e feminista, Janja também é umbandista[1], ou seja, segue a Umbanda, religião de matriz africana que assim como outras da mesma origem sofre historicamente intolerância em diversos níveis no Brasil.

Esses elementos pessoais denotam alguns dos contornos singulares da nova primeira-dama - ela é apenas a segunda da história do Brasil a ter uma carreira profissional autônoma prévia, e a quarta a ter diploma universitário. Mas é sua atuação formal e institucional desde a campanha até os primeiros meses do novo governo que tem sido inovadores. Além de ter atuado fortemente na campanha eleitoral e ter tido um papel importante nas escolhas dos componentes do 1º e 2º escalão do governo, assim como na aproximação do presidente Lula com Simone Tebet (terceira colocada no 1º turno das eleições presidenciais e atual ministra do Planejamento e Orçamento), Janja irá ocupar um cargo não remunerado no Planalto com agenda própria e lives periódicas, dentro do Gabinete de Ações Estratégicas em Políticas Públicas, subordinado ao Gabinete Presidencial. Por esse protagonismo, críticos questionaram se ela teria atuação “excessiva” dentro do governo e membros do núcleo presidencial teriam se incomodado com a influência dela a Lula[2].

Desde a vitória nas urnas Janja se afirma aliada no combate ao feminicídio e tem se posicionado como uma espécie de “embaixadora pela igualdade de gênero”[3]. Na reunião emergencial de Lula com os governadores após os ataques a Brasília em 08 de janeiro, ela estava presente ao lado do presidente, algo não usual segundo especialistas. Tal postura, é claro, não é acidental: Janja declarou em entrevistas que gostaria de "ressignificar o que é ser uma primeira-dama"[4], função historicamente ligada à ideia de um trabalho assistencial ao do marido. Para esse desejo, ela afirma ter como inspirações Eva Perón (Argentina) e Michelle Obama (EUA).

Embora ser primeira-dama no Brasil não seja um cargo formal e consequentemente não tenha remuneração, algumas das mulheres que por ele passaram se destacaram por seu trabalho engajado em causas sociais e humanitárias, muitas vezes ligado a programas de assistência social. Ruth Cardoso, esposa do ex-presidente FHC (1995-2003), criou o programa Comunidade Solidária para incentivar ações sociais em todo o país. Marisa Letícia, esposa de Lula durante seus dois primeiros mandatos, atuou em projetos de inclusão social e foi forte apoiadora do programa Bolsa Família. Sarah Kubitschek e Darcy Vargas também tiveram trabalhos muito relevantes neste âmbito. As duas últimas antecessoras, Marcela Temer e Michelle Bolsonaro, porém, tiveram pouca atuação na vida política e social do país, com raras aparições públicas ou discursos oficiais, e especialmente em relação a elas Janja representa uma guinada significativa.

A nova primeira-dama tem um perfil ativo - é militante partidária e muito participativa, e recebe do presidente espaço para que essa participação aconteça. Ela traz consigo uma agenda progressista e de defesa dos direitos humanos, com o desejo de atuar nas áreas de segurança alimentar, combate à violência doméstica e combate ao racismo, dando especial prioridade à promoção da igualdade de gênero. Dessa forma, Janja demonstrou até aqui não ter interesse em seguir a tradição de suas antecessoras, assumindo uma política ou programa específico para si, geralmente ligado à assistência social.

Segundo especialistas, o seu objetivo seria observar de forma transversal as políticas públicas e construir a partir disso sua atuação e imagem como primeira-dama, e seria esse ponto, mais do que a sua atuação ou influência política na prática, o fator inovador da figura de Janja. Há a construção e o reforço, até então inédito, da imagem e atuação pública de uma primeira-dama propositalmente oposta à da tradicional assistencial “bela, recatada e do lar” (conforme a famosa, e amplamente criticada, descrição de Marcela Temer em 2016).

Mesmo com muitas divergências sobre as novos ares que Janja tem invariavelmente trazido à função que está ocupando, dois pontos são unânimes: primeiro, a influência central da primeira-dama na construção da imagem pública do presidente, e, segundo, a amplificação de voz e poder de influência enorme que acompanham esse posto, que, quando usados, podem trazer diversos ganhos pro país e pra nação.

Ainda temos mais de 1000 dias de governo Lula pela frente; muito ainda a se fazer e consolidar em todas as frentes. Mas os burburinhos em relação a Janja fazem jus à sua atuação até aqui: parece haver algo inovador e potencialmente positivo sendo implementado ao conceito do que faz, pode ou deve fazer a esposa de um Presidente da República no Brasil, especialmente dentro de uma perspectiva progressista e feminista. A história comprova que esse posto, que traz consigo um enorme poder de alcance, unido a um trabalho bem organizado e bem pensado, permite-se atingir grandes resultados. Janja, com sua formação política e acadêmica, traz uma bagagem estratégica para implementar mudanças significativas. Seguiremos acompanhando.

 

* Aurea Thatyanne Ferreira é socióloga formada pela UFRJ e pela Uni Freiburg, com interesses em arte e cultura popular brasileira, globalização e dinâmicas geopolíticas de Norte e Sul global. Nascida e criada no Rio de Janeiro, mora atualmente na Alemanha e é colaboradora do KoBra.

 

[1] ‘Ser ligada a uma religião de matriz africana só me dá orgulho’, afirma Janja sobre intolerância religiosa. G1, 2022. Disponível em: <https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/11/14/ser-ligada-a-uma-religiao-de-matriz-africana-so-me-da-orgulho-afirma-janja-sobre-intolerancia-religiosa.ghtml>. Acessado em 11/04/2023.

[2] IMPRENSA RETORNA AO ANTIPETISMO MESQUINHO COM MANIFESTAÇÕES DE MACHISMO CONTRA JANJA. The Intercept Brasil, 2022. Disponível em: <https://www.intercept.com.br/2022/11/18/imprensa-retorna-ao-antipetismo-com-machismo-contra-janja/>. Acessado em 04/04/2023.

[3] Podcast: O protagonismo de Janja e o papel de primeiras-damas no Brasil. Folha de S. Paulo, 2023. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/podcasts/2023/03/podcast-o-protagonismo-de-janja-e-o-papel-de-primeiras-damas-no-brasil.shtml>. Acessado em 05/04/2023.

[4] “Quero ressignificar o conteúdo do que é ser uma primeira dama”, diz Janja em entrevista. Carta Capital, 2022. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/carta-capital/quero-ressignificar-o-conteudo-do-que-e-ser-uma-primeira-dama-diz-janja-em-entrevista/>. Acessado em 04/04/2023.