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Quilombolas Brasileiros: resistência versus violaçoes

Sou Ana Claudia Matos, moro em um dos Estados da Amazônia Oriental, Tocantins, pertenço ao quilombo de Mumbuca localizado no Municipio de Mateiros-TO, região do Jalapão.

Pertenço a um grupo, descendente de africanos trazidos ao Brasil para o vil trabalho escravo. Tenho plena consciência  que os meus antepassados não se conformaram com as condições impostas a eles e buscaram a liberdade, andando  quilômetros e quilômetros a procura de um lugar para refúgio, até encontrar esse lugar chamado Mumbuca. Ainda hoje vivemos lá e continuamos lutando no território e pelo território. Carregamos a herança recebida dos nossos antepassados, trazida no sangue valente, no nome e na cultura afro-brasileira.

 

Estamos em conflito com o próprio Estado, o qual criou sobre o nosso território o Parque Estadual do Jalapão em 2001, área de proteção integral, sem nenhuma consulta prévia, ignorando totalmente  os moradores, os quais foram  proibidos de praticar suas atividades tradicionais, como criação de gado e plantio de roças.

Vivemos em constante luta e resistência desde quando trouxeram a força os nossos antepassados, não apenas em Mumbuca ou Jalapão, mas em todo o Estado brasileiro. São  situações  de violações de direitos básicos e a  opressão do capital nos pressiona de diferentes formas, expulsando as comunidades de seus territórios e ou criando conflitos internos com o objetivo de dividir o grupo e desestruturar a organização das comunidades.

Entre os muitos desafios das comunidades remanescentes quilombolas do Tocantins e de todo Brasil, o mais importante é fazer valer os nossos direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais. Lutamos contra grandes ameaças: os grandes projetos de agronegócio, hidrelétricas, ameaças dos fazendeiros, sobreposição de unidades de conservação, acesso as políticas públicas, retrocessos no legislativo, a exemplo da extinção do decreto 4.887/2003(define o procedimento para regularização dos territórios quilombolas) e aprovação do Projeto de Emenda Constitucional 215 (repassa o poder de criação dos territórios do executivo para o legislativo).

 

Embora seja uma das maiores e mais belas áreas  naturais do Brasil, o Jalapão é também a região em que está localizado, segundo dados da última Pesquisa de Orçamento Familiar divulgada pelo IBGE, um dos três municípios com maior incidência de pobreza do Brasil, com 81,5 % de pobreza.  Sendo importante ainda destacar que o Jalapão possui 9  comunidades quilombolas  que ainda hoje vivem em condições extremas de escassez  de políticas públicas e carência de serviços públicos básicos.

No Estado do Tocantins não existe nenhuma comunidade  Quilombola que possui o seu território regularizado com o titulo emitido pelo Estado, conforme artigo 68 da ADCT. Nas comunidades existe  profunda negação de direitos, violência racial, racismo institucional,   deficiências no sistema de saúde, problemas de infraestrutura e saneamento, insegurança alimentar e muitas dificuldades educacionais.

Mumbuca  é apenas uma das muitas comunidades quilombolas, povo negro que é violado em seus direitos, sentem sede, adoecem e sofrem agruras diversas em silêncio ano após ano. A vida  dos quilombolas encontra-se ameaçada a muito tempo, seja pelos grandes projetos de monocultura do agronegócio,  seja pelo  envenenamento  dos rios, como é o caso do Rio Novo, um dos maiores rios 100% potável do mundo, seja pelas usinas que propõe deixar debaixo da água comunidades quilombolas. Mas essa notícia não tem sido publicada nos jornais, as redes sociais não têm se mobilizado, a nossa realidade não tem visibilidade. Os governos que tem o dever  de proteção, são os maiores violadores e  tão pouco sentem-se  responsáveis a fazer algo. O silêncio profundo parece calar a consciência da sociedade em relação aos povos tradicionais que sofrem o descaso e a pobreza numa terra de riquezas naturais.

Diante de todos os desafios, a participação no Projeto Ije-ofé, me fez ter uma tomada de conciência de forma ampliada, sobretudo a condição de quilombola, jovem e mulher. A afirmação e fortalecimento da minha identidade, fez com que eu compreendesse que as questões étnicas sãos ultizada como estrategias  pelo opressor e seu sistema de negação. Eles investem na afirmação da auto-negação da historia, origem, cor, religiosidade, e toda nossa cultura, eles tiram de nós o que somos e nos deixam vazios de nós.

 

É por isso que corremos um serio risco de continuuarmos  oprimidos, se não soubermos disso ainda quando criança, e lutarmos quando jovens, será impossivel vencer o modelo de produção opressor que avança de forma avassaladora sobre as nossas comunidades. A opressão atinge principalmente os jovens, fazendo-os abandonar os seus territorios com promessas vázias de desenvolvimento. É o momento de não pararmos de lutar, é o momento de denunciar esse sistema de sofrimento em vez de desenvolvimento, nós juventude quilombola temos essa responsabilidade, para isso precisamos de  possibilidades de formção, com projetos como o Ije-Ofé e assim conquistarmos a tomada de consciência na luta continua  pelo um mundo melhor.