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Juventude rural e processos migratórios no Nordeste do Brasil

De acordo com o censo do IBGE 2010, no Brasil existem 53 milhões de jovens, na faixa-etária que vai dos 15 aos 29 anos. Dentre estes, 8 milhões estão no meio rural, o que equivale a um para cada 6 jovens do Brasil. Além disso os jovens representam 27% de toda a população rural no Brasil (Fonte : Censo 2010/IBGE)

Considerando a relevância desses dados, no espaço deste texto, pretendemos contribuir com a discussão da juventude rural e os processos migratórios na região Nordeste do Brasil, buscando discutir como os problemas históricos que envolvem as questões agrárias e ambientais têm articulação com as situações que impulsionam a migração.

Não entendemos a migração como um simples processo de expulsão dos jovens do campo, no entanto, também não podemos deixar de considerar que as questões agrárias historicamente construídas, contribuem para a exclusão das famílias de agricultores familiares que vivem no nordeste brasileiro e, especificamente, na região do semiárido, reduzindo as possibilidades de escolha dos jovens rurais.

Entendemos a juventude como uma categoria socialmente construída, que vive uma condição específica do curso da vida (PAIS, 2003) definida socialmente como transicional, particularizada pelas situações de classe social, gênero, etnia e lugar de vida. As concepções modernas de juventude a encaram como um processo de transição e preparação para a vida adulta, o que Pais (2003) considera como um  “complexo processo de negociação”, sustentando a tese de que não há uma, mas várias forma de transição, assim como várias formas de ser jovem ou de ser adulto (PAIS, 2003, p. 44). Este processo de negociação intra e intergeracional é específico para a juventude rural, que vivencia  diferentes situações juvenis no meio rural (WEISHEIMER, 2013) e que, apesar disto, compartilham o fato de terem o rural como seu lugar de vida. (WANDERLEY, 2009). É importante, no entanto, salientar que  no interior do mundo rural, as várias configurações sociais irão ser responsáveis por diferentes vivências de juventude. Neste sentido, só é possível compreender a juventude rural a partir da compreensão do meio rural no qual a mesma está inserida e das múltiplas condições sociais decorrentes da construção social, política e econômica desse meio.

O Nordeste do Brasil é uma região de contrastes históricos, na qual grande parte de sua população rural vive uma situação de precariedade decorrente da falta de condições de subsistência digna, o que, historicamente, tem impulsionado fortes processos migratórios para os centros urbanos, ou mesmo para outras regiões do país, seja à procura de novos espaços de trabalho em outras profissões, seja como mecanismo para rearranjar sua vida no seu meio rural de origem, em condições diferentes das vivenciadas por seus pais. Ou seja, nem sempre o fato de migrar implica em ruptura com o mundo rural, estando muitas vezes a serviço da reprodução social dos indivíduos e de seus grupos familiares nos espaços de residência-base. Nesse sentido, podemos assumir que os processos migratórios protagonizados pelos jovens, que vivem no rural do nordeste brasileiro, são decorrentes principalmente do precário acesso aos meios de produção como terra, água, máquinas e equipamentos, vivenciado pelos seus pais e pelos  próprios jovens (PAULO,2011; WANDERLEY, 2006; SILVA e COVER, 2010; SILVA, 2013; WEISHEIMER, 2013).

Quando se trata de jovens, este processo de invisibilidade é triplo: tanto no interior do meio rural, quanto na família e na comunidade. Até a década de 1990, estes atores sociais sequer eram percebidos pelo Estado e pela própria academia. Vivendo no interior de uma família que tem o pai como o chefe da família e, por extensão, do patrimônio e que percebe a terra como um valor moral que precisa ser mantido e passado para as futuras gerações, os jovens, encarados como parte do grupo familiar (entendido como uma coletividade), tinham seus projetos de vida,  de ficar ou sair, relacionados com a manutenção desta propriedade por algum membro da família.

Assim, Se as condições de vida e reprodução social na agricultura familiar camponesa são precárias, a migração é a principal estratégia de busca pela sobrevivência digna e pela realização dos sonhos dos jovens rurais. No Brasil, a migração campo/cidade, sempre foi encarada como uma alternativa às condições precárias de sobrevivência. De fato, os dados mostram que é crescente a migração entre jovens rurais: Em 2000 a população rural era 31.835.143 e 9.000.000 eram jovens de 15 a 24 anos, em 2010  a população rural ficou em 29.830.007, sendo que 8.060.454 eram jovens.. Isto representa que em 10 anos cerca de 2 milhões de pessoas deixaram o meio rural, destes  um milhão são jovens. No entanto, conforme já pontuado, é preciso observar a migração não apenas de um ponto de vista do esvaziamento do meio rural, mas como alternativa para a reprodução social do modo de vida camponês, quando as condições de sobrevivência na agricultura não são suficientes e, para os jovens, como ritual necessário para aquisição da autonomia e da maturidade que irá leva-lo a adultez.

Klaas Woortmann (2009) ao estudar os sitiantes de Sergipe, na década de 1980, percebeu que a migração é reflexo da inviabilidade das condições de existência desses sitiantes, mas também mecanismo de reprodução da sua própria condição[1].  Em seu estudo, os sitiantes distinguem três modalidades de migração: “a migração pré-matrimonial do filho; aquela do chefe da família de tipo circular e a emigração definitiva” (WOORTMANN, 2009, p. 217).

No que se refere especificamente à migração pré-matrimonial, praticada pelos jovens como condição para o casamento, o autor aponta que são os filhos dos  sitiantes fracos que mais realizam este tipo de migração, já que é por meio dela – juntamente com os recursos provenientes de sua produção no ‘chão de roça” doado pelo pais -  que os jovens filhos de camponeses sitiantes de Sergipe conseguiam,  as condições que possibitariam a vida de casados. Entretanto, no contexto dos sitiantes de Sergipe, a migração é também  apontada por Woortmann como um processo ritual, demarcador da passagem de rapaz para homem, sendo nesse sentido praticada também pelos filhos de sitiantes fortes.

Apesar de entender que a migração é uma prática de reprodução do campesinato, é importante não perder de vista como as mesmas são também reflexos de condições históricas de negação do acesso a terra e de políticas que viabilizem a reprodução  ao menos de parte da família no campo em condições dignas. Ela é também condição de vivência e, portanto de acesso a símbolos que demarcam a condição juvenil na atualidade, a exemplo  do consumo de roupas, motocicleta e o acesso aos meios de comunicação e novas tecnologias (tablets, celulares etc.). Por mais precárias que sejam as condições de trabalho, os jovens buscam a migração como mecanismo de mobilidade social e acesso a esses bens materiais e simbólicos, pelos quais buscam demarcar suas identidades de jovem e de gênero.

Especificamente no Sertão Paraibano e Pernambucano Silva e Menezes (2007) e Silva e Cover (2010) vêm pesquisando a migração dos jovens rurais, daquela região, para o corte da cana-de-açúcar no Sudeste do país e os reflexos dessas praticas migratórias nas vidas desses jovens, em suas famílias e redes de amizade. De acordo com os autores, a migração sazonal, adotada por grande parte dos jovens, decorre da pouca oportunidade de trabalho em seus locais de origem e se constitui como estratégia visando  possibilitar, de alguma forma, a permanência da família no meio rural com acesso a bens e serviços que a inserção na agricultura local, dadas as condições atuais (dificuldade de acesso à terra, insustentabilidade hídrica, problemas ambientais), não possibilitaria. De um rural para o outro, os jovens saem dos seus espaços de vida para se inserirem nos espaços da alta exploração do agronegócio da cana-de-açúcar, nos quais vivenciam situações análogas ao trabalho escravo, tendo seus corpos e mentes marcados pelo signo do adoecimento e, não raramente, da morte.

Realidade parecida encontrou Valéria Silva (no Estado do Piauí). Segundo ela, as fazendas de soja instaladas no Estado são as grandes empregadoras dos jovens rurais, filhos de agricultores familiares camponeses da região do cerrado piauiense. Aliando o padrão patriarcal, onde os homens são responsáveis pelo trabalho público, às novas estratégias de exploração do trabalho, as fazendas conseguem atrair para suas roças principalmente os jovens do sexo masculino, já que ali foi percebida a divisão/organização do trabalho segundo critérios de gênero, restando para as moças poucos postos de trabalho em atividades-meio. Assim como na cana de açúcar, o trabalho na produção e coleta de soja é marcado pela penosidade e precariedade, submetendo os jovens a rotinas de até doze horas de trabalho por dia.

Com pouco acesso à educação e à cultura, os jovens rurais são impulsionados a sair, muitas vezes, como forma de adquirir meios para voltar a viver em sua comunidade. Sem alternativas de acesso a trabalho e renda em seus locais de origem os jovens rurais, tendo como centralidade seu lugar de moradia, tendem a se conectarem a outros lugares, mobilizando-se em busca de acesso a trabalho e renda que lhes permita a satisfação de suas necessidades e, em última instância, a reprodução do seu grupo familiar. Portanto, a migração frequentemente se relaciona com ausência de bens, serviços e oportunidades de trabalho e renda nos lugares de destino. Esta ausência deita raiz na história do campesinato brasileiro estando imbricada, não raramente, com  processos de Expropriação dos quais historicamente o campesinato tem sido vítima, o que nos leva a questionarmos o papel do Estado e das políticas públicas direcionadas à juventude e, especificamente, à juventude rural. Pensar em uma política para os jovens rurais hoje é pensar em ações e estratégias de modo a dinamizar economicamente as pequenas cidades/municípios, permitindo atividades de geração de emprego e renda; numa educação escolar que leve em consideração as especificidades próprias desse meio e que seja instrumento de transformação social, favorecendo o reconhecimento e a exploração de suas riquezas e potencialidades.

Nesse sentido, resgatamos aqui, a título de conclusão, o debate de Marx com Feuerbach sobre a religião. Para Marx (1989), não eram as ideias religiosas em si que era preciso combater, pois se as ideias religiosas dos homens são flores imaginárias com as quais eles enfeitam suas “cadeias” reais, a crítica deve ser feita a tais cadeias e não às flores que as tornam suportáveis. Igualmente para nós, a questão não está na migração em si, mas nas condições objetivas que a tornam necessária. É sempre possível melhorar as condições de trabalho e vida (moradia, alimentação etc.) dos migrantes, todavia o desafio essencial é pensarmos políticas públicas inovadoras para o meio rural brasileiro e para os jovens que aí vivem; políticas que deem acesso ao trabalho, renda, educação e outros serviços básicos, inclusive, já garantidos na legislação brasileira. Mas, para isto, um novo modelo de nação e de desenvolvimento rural faz-se necessário.



[1] Essa discussão é feita em um clássico estudo sobre o brejo paraibano realizado por Afrânio Garcia Jr, intitulado Sul: caminho do roçado (Garcia Jr. 1989). Neste, o autor mostra como a migração, assim como outras estratégias, é condição necessária para a formação de uma nova unidade familiar.

 

Referências bibliográficas:

COVER, M. e SILVA, M. S. A migração dos jovens rurais no alto Sertão da Paraíba: tramas de dominação, resistência e reconfiguração das relações no meio rural. ENCONTRO DA REDE DE ESTUDOS RURAIS. Mundo Rural, Políticas Públicas, Instituições e Atores em Reconhecimento Político. UFPR, Curitiba, 2010.

 

Marx, K; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo, Martins Fontes, 1989.

 

PAIS, José Machado. Culturas Juvenis. Imprensa Nacional casa da moeda: Lisboa: Portugal, 2003.

 

PAULO, Maria de Assunção Lima de. Juventude Rural: suas construções identitárias. Recife : Ed. Universitária da UFPE, 2011.

 

SILVA, Marcelo Saturnino da; MENEZES, Marilda Aparecida. Entre o bagaço da cana e a doçura do mel: migrações e identidades da juventude rural. In: CARNEIRO, Maria José; CASTRO, Elisa Guaraná de. (orgs) Juventude Rural em Perspectiva. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007.

 

SILVA. Valéria. RABICHEIROS E BAZUQUEIROS: trânsitos identitários juvenis rurais na diáspora do agronegócioTrabalho apresentado na III Reunião Equatorial de Antropologia (REA). XII Encontro de Antropólogos do Norte/Nordeste (ABANNE). Boa Vista: UFRR, 14 a 17 de agosto/2011. 23 p.

 

WANDERLEY, Maria de Nazareth Baudel. Juventude rural: vida no campo e projetos para o futuro. 2006. (Relatório de pesquisa).

 

WANDERLEY, Maria de Nazareth Baudel. O Mundo Rural como Espaço de Vida, reflexões sobre a propriedade da terra, agricultura familiar e ruralidade. Porto Alegre:

Editora da UFRGS, 2009.

 

WEISHEIMER, N. Estudo da situação juvenil na agricultura familiar do recôncavo da Bahia. 37º Encontro Anual da ANPOCS, Águas de Lindóia, São Paulo, 2013.

 

WOORTMANN, K. Migração, família e campesinato. In: WELK. Et all. Camponeses Brasileiros v.1. Coleção história social do campesinato. Nead, editora UNESP: São Paulo, 2009.